Momentos | Há mais riquezas porém menos força

Robert Friedrich Stieler
Fábricas químicas da BASF em Ludwigshafen, Alemanha (1881), de Robert Friedrich Stieler (1847–1908)

Lendo O Idiota, publicado em 1869 – à exemplo do que acontece com todos os calhamaços que Dostoiévski deixou – dificilmente não somos levados, ao longo dos muitos temas abordados pela narrativa, à comparar os argumentos de então com os argumentos de agora. Entre esses temas, encontramos de forma recorrente a discussão sócio-política entre os Ocidentalistas e os Filoeslavistas. Discussão que pode ser representada no meio literário por Ivan Turguêniev (liberal, progressista e ocidentalistas convicto) e por Dostoiévski (conservador, avesso ao ocidentalismo e que defendia um modelo próprio, russo, de desenvolvimento), assim como por outras personalidades da época. Cito particularmente os dois porque entre eles houve inúmeras desavenças ideológicas nesse sentindo, além dos inusitados barracos literários.  Se um fora apelidado de “gigante doce”² e o outro sugeria ser “um homem doente”³, ambos subiam no ringue como adolescentes agressivos e saudáveis. 

Para os Ocidentalistas, o atraso no progresso da Rússia era uma vergonha, para os Filoeslavistas, o progresso pela via ocidental era uma desgraça, e, à despeito das desavenças, aqui estamos, com a incrível obra deixada pelos dois. Essa questão, Ocidentalistas versus Filoeslavistas, marcou grande parte das discussões intelectuais na Rússia do século XIX e, ao que parece, de forma tão polarizada como as discussões de hoje.

No fragmento abaixo, lemos na fala do personagem Liébediev – então discursando numa festa entre amigos, regada à vinho – o momento de uma defesa improvisada, aparentemente conservadora, e que representaria algo do pensamento do próprio Dostoiévski.

A sociedade humana está ficando demasiadamente barulhenta e industrial, nela há pouca paz de espírito! (…)

Com a instabilidade dos fundamentos morais, o amigo da humanidade é um antropófago da humanidade, sem falar da sua vaidade; porque vá você ofender a vaidade de algum desses amigos da humanidade, e imediatamente ele estará disposto a incendiar os quatro extremos do mundo por uma pequena vingança (…)

Havia um pensamento mais forte que todas as desgraças, más colheitas, torturas, lepra, maldições, e toda sorte de inferno que a humanidade não suportaria sem um pensamento que concatenasse, que orientasse o coração e fertilizasse as fontes da vida! Mostrem-me os senhores algo semelhante a tal força em nosso século de vícios e estradas de ferros; mostrem-me uma ideia que ligue e agregue a atual sociedade humana ao menos com a metade daquela força que havia naqueles séculos (…)

E não me assustem com o vosso bem-estar, com as vossas riquezas, com a raridade da fome e a rapidez das vias de comunicação! Há mais riquezas porém menos força ¹.

Eis! E não raro, também ouvimos essa queixa entre aqueles mais avessos, críticos por assim dizer, de certas tendências e condições de nosso tempo. Não propriamente avessos à expansão das “estradas de ferro” na Rússia do século XIX, claro! Avessos ao correlato representado pela disseminação veloz, feroz, e nem sempre consciente, dos muitos sinais e ruídos tecnológicos, pelo uso ostensivo e pela realidade onipresente de seus meios. Assim também, no lugar de uma “instabilidade” moral, fala-se hoje mais facilmente dos riscos humanos de um relativismo moral.

O quê exatamente esses termos representam; se são justos, verdadeiros, ou não, cada um julgue por si, mas reforço a última frase do fragmento acima, na forma de uma pergunta à nós mesmo sobre nosso tempo e seus argumentos: 

“Há mais riquezas, porém menos força” ?

Até!


NOTA:
1 – F. Dostoiévski, O IDIOTA, Editora 34. (pags. 421 e 425)
2 – Sobre Turguêniev, segundo Edmond Goncourt, em carta.
3 – F. Dostoiévski, MEMÓRIAS DO SUBSOLO, Editora 34 (pag. 15)

Sugestão | Leitura crítica sobre Arte e Atenção

Para quem se interessa por literatura, escrita, artes em geral, particularmente pela relação entre os meios digitais, subjetividade e atenção, que determinam a relevância das intuições e expressividade que o “artístico” encerra ante o sempre evocado “declínio artístico”, deixei esse trecho (talvez polêmico, talvez óbvio, talvez cínico) de um livro que estou lendo, livremente traduzido porque infelizmente ainda não há edição em Português.

Acrescento apenas duas modestas referências no rodapé para desambiguação de alguma eventual confusão com o conceito de “individuação”, mais as imagens de um ilustrador que resolveu colocar gadgets em pinturas famosas para ver no que dava. É desnecessário dizer que sobre o declínio artísticos há, como há em tudo (mas talvez cada vez menos), controvérsias e exceções:

Segue:

Que escritores e artistas devam sequestrar a si mesmos e proteger suas energias internas é de conhecimento geral. O processo é, por um lado, generativo, dando vazão aos impulsos inventivos e de criação/produção; por outro, é agressivamente defensivo, para manter as distrações do mundo ao largo.

Se realmente há, em larga escala, um declínio artístico da imaginação (embora, como poderíamos medir tal coisa?) eu sugiro algumas possíveis razões. Primeiro, que o impulso criativo em si tem diminuído, com artistas sentindo menos pressão para interpretar ou replicar a realidade que eles encontram. O volume de ruídos e sinais concorrentes tem, no mínimo, sobrecarregado o espaço privado, minando as forças de resistência necessárias para que o artista encontre o distanciamento que lhe permita delimitar uma esfera de foco. Ou senão, talvez nossa mediada – e completamente reconfigurada – realidade simplesmente resista a ser usada como material para transformação criativa; que uma realidade de natureza cada vez mais intangível, multimídias, não permita ser representada criativamente com sucesso.

Escritores sempre mapearam os feitos das pessoas do mundo, e até recentemente isso tem sido mapeável. Mas a maioria das pessoas agora passam garnde parte de seus dias em frente à telas, e muito de sua comunicação se dá por meio de circuitos. Uma coisa é representar isso; outra, bem diferente, é criar um drama à partir daí.

(…) A imaginação cria forma, a informação impõe forma. O primeiro é uma energia própria, o segundo, a energia do mundo. Uma dinâmica saudável entre o eu e o mundo tem tudo à ver com a vitalidade do indivíduo nesse mesmo mundo, e isso clarifica o lugar da arte. Quando ela é encontrada da forma certa, atentamente, uma grande arte, uma obra ambiciosa ou realizada, não apenas nos eleva à seu nível mas também nos dá energia sob a forma de atenção; ela oferece uma integridade interna que ajuda a conter a força dispersiva dos sinais, das infindáveis distrações dos dados (…) mantendo o ideal de individuação*, tão ameaçado, ainda viável

Changing the Subject: Art and Attention in the Internet Age

O livro é uma coletânea de ensaios sobre a arte e a atenção na era da Internet, mais propriamente sobre a arte escrita e as exigências atencionais feitas por meio da Literatura: “Changing The Subject: Art and Attention in the Internet Age”, de Sven Birkerts. O trecho acima traduzido se encontra no primeiro ensaio.

A resenha crítica vem em breve!
Boas reflexões e até logo.


Velho Homem Triste, de Van Gogh, por Kim Dong-Kyu

“Velho homem triste”, de Van Gogh, e seu smartphone | Veja a galeria com outras imagens do ilustrador Kim Dong-Kyu: Ilustrações do projeto “Art X Smart”


NOTAS:

*Individuação segundo Carl G. Jung:

“O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada função transcendente”.¹ “A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desenvolve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do indivíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação”².

1- JUNG, Tipos psicológicos, 2009, Editora Vozes
2- JUNG, Psicologia do inconsciente, 2008, Editora Vozes<

Tradução do artigo de Jenny Hendrix, no Boston Review

Olá, fizemos uma tradução livre do artigo de Jenny Hendrix, publicado pela Boston Review na seção de Filosofia e Religião, sobre o livro “Changing the Subject: Art and Attention in the Internet Age” – do crítico Sven Birkerts, ainda sem tradução em Português. Deixamos a tradução na seção “Tópicos Relacionados”.

Eventuais traduções são uma iniciativa livre desse blog, ainda em preparação e ajustes, de forma que qualquer sugestão interessada é não apenas bem-vinda como muito necessária. O artigo original pode ser lido na página da Boston Review e foi traduzido para servir de referência em português à outro trabalho que está sendo feito.

Tradução | Ghost in the Machine

Até logo!