Sugestão | Leitura crítica sobre Arte e Atenção

Para quem se interessa por literatura, escrita, artes em geral, particularmente pela relação entre os meios digitais, subjetividade e atenção, que determinam a relevância das intuições e expressividade que o “artístico” encerra ante o sempre evocado “declínio artístico”, deixei esse trecho (talvez polêmico, talvez óbvio, talvez cínico) de um livro que estou lendo, livremente traduzido porque infelizmente ainda não há edição em Português.

Acrescento apenas duas modestas referências no rodapé para desambiguação de alguma eventual confusão com o conceito de “individuação”, mais as imagens de um ilustrador que resolveu colocar gadgets em pinturas famosas para ver no que dava. É desnecessário dizer que sobre o declínio artísticos há, como há em tudo (mas talvez cada vez menos), controvérsias e exceções:

Segue:

Que escritores e artistas devam sequestrar a si mesmos e proteger suas energias internas é de conhecimento geral. O processo é, por um lado, generativo, dando vazão aos impulsos inventivos e de criação/produção; por outro, é agressivamente defensivo, para manter as distrações do mundo ao largo.

Se realmente há, em larga escala, um declínio artístico da imaginação (embora, como poderíamos medir tal coisa?) eu sugiro algumas possíveis razões. Primeiro, que o impulso criativo em si tem diminuído, com artistas sentindo menos pressão para interpretar ou replicar a realidade que eles encontram. O volume de ruídos e sinais concorrentes tem, no mínimo, sobrecarregado o espaço privado, minando as forças de resistência necessárias para que o artista encontre o distanciamento que lhe permita delimitar uma esfera de foco. Ou senão, talvez nossa mediada – e completamente reconfigurada – realidade simplesmente resista a ser usada como material para transformação criativa; que uma realidade de natureza cada vez mais intangível, multimídias, não permita ser representada criativamente com sucesso.

Escritores sempre mapearam os feitos das pessoas do mundo, e até recentemente isso tem sido mapeável. Mas a maioria das pessoas agora passam garnde parte de seus dias em frente à telas, e muito de sua comunicação se dá por meio de circuitos. Uma coisa é representar isso; outra, bem diferente, é criar um drama à partir daí.

(…) A imaginação cria forma, a informação impõe forma. O primeiro é uma energia própria, o segundo, a energia do mundo. Uma dinâmica saudável entre o eu e o mundo tem tudo à ver com a vitalidade do indivíduo nesse mesmo mundo, e isso clarifica o lugar da arte. Quando ela é encontrada da forma certa, atentamente, uma grande arte, uma obra ambiciosa ou realizada, não apenas nos eleva à seu nível mas também nos dá energia sob a forma de atenção; ela oferece uma integridade interna que ajuda a conter a força dispersiva dos sinais, das infindáveis distrações dos dados (…) mantendo o ideal de individuação*, tão ameaçado, ainda viável

Changing the Subject: Art and Attention in the Internet Age

O livro é uma coletânea de ensaios sobre a arte e a atenção na era da Internet, mais propriamente sobre a arte escrita e as exigências atencionais feitas por meio da Literatura: “Changing The Subject: Art and Attention in the Internet Age”, de Sven Birkerts. O trecho acima traduzido se encontra no primeiro ensaio.

A resenha crítica vem em breve!
Boas reflexões e até logo.


Velho Homem Triste, de Van Gogh, por Kim Dong-Kyu

“Velho homem triste”, de Van Gogh, e seu smartphone | Veja a galeria com outras imagens do ilustrador Kim Dong-Kyu: Ilustrações do projeto “Art X Smart”


NOTAS:

*Individuação segundo Carl G. Jung:

“O processo psicológico da individuação está intimamente vinculado à assim chamada função transcendente”.¹ “A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem. No início não passa de um processo natural. Há casos em que ela se desenvolve sem que tomemos consciência, sem a nossa contribuição, e pode até impor-se à força, contrariando a resistência do indivíduo. O sentido e a meta do processo são a realização da personalidade originária, presente no germe embrionário, em todos os seus aspectos. É o estabelecimento e o desabrochar da totalidade originária, potencial. Os símbolos utilizados pelo inconsciente para exprimi-la são os mesmos que a humanidade sempre empregou para exprimir a totalidade, a integridade e a perfeição; em geral, esses símbolos são formas quaternárias e círculos. Chamei a esse processo de processo de individuação”².

1- JUNG, Tipos psicológicos, 2009, Editora Vozes
2- JUNG, Psicologia do inconsciente, 2008, Editora Vozes<

Tradução do artigo de Jenny Hendrix, no Boston Review

Olá, fizemos uma tradução livre do artigo de Jenny Hendrix, publicado pela Boston Review na seção de Filosofia e Religião, sobre o livro “Changing the Subject: Art and Attention in the Internet Age” – do crítico Sven Birkerts, ainda sem tradução em Português. Deixamos a tradução na seção “Tópicos Relacionados”.

Eventuais traduções são uma iniciativa livre desse blog, ainda em preparação e ajustes, de forma que qualquer sugestão interessada é não apenas bem-vinda como muito necessária. O artigo original pode ser lido na página da Boston Review e foi traduzido para servir de referência em português à outro trabalho que está sendo feito.

Tradução | Ghost in the Machine

Até logo!