Citação | Sobre a verdade e o amor

Quotes-Edith-Stein

Ainda às voltas com a leitura de O Idiota, me deparei com uma censura afiada, síntese de algo óbvio ou (julgue o visitante) apenas controverso:

Numa conversa com a jovem Aglaiapríncipe Míchkin fala sobre certas circunstâncias decisivas que envolviam um outro jovem personagem, cuja vida gravitaria entre uma doença fatal, a vaidade desgovernada e suas aspirações enlouquecidas. A jovem, de aparência “extraordinariamente bela, tão bela que [dava] até medo”, e cujo nome, não descuidadamente, fora escolhido do grego antigo: aquela que brilha, compreendendo mal o que dizia o atrapalhado protagonista, censura: 

É muito grosseiro ver e julgar assim a alma de um homem… você não tem ternura: só a verdade, portanto, é injusto.

Ainda que, nesse caso, equivocada; ainda que, também, boas intenções possam se dissolver em meio aos preconceitos e obstinações irracionais no hábito do julgamento alheio, essa censura me parece muitíssimo verdadeira, muitíssimo adequada como lição, ou ao menos, se nada disso, reflexão – e confesso que gastei um tempo com ela.

Como são inúmeras as referências e influências bíblicas que Dostoiévski usa para formar o personagem Míchkin, a atmosfera de verdadecompaixão, que surge do intelecto e do coração desse benevolente, e idiota, protagonista, me fez recordar um aforismo da filosofa e teóloga alemã, Edith Stein; o mesmo citado por João Paulo II na homilia de canonização da própria Edith como Santa Tereza Benedita da Cruz¹, e ressoa com a censura da personagem de Dostoiévski:

Não aceites como verdade nada que seja isento de amor, e não aceites como amor nada que seja isento de verdade.

Dada a abordagem filosófica e existencialista com a qual Dostoiévski trabalha seus temas, e mesmo nas ocasiões em que não trata explicitamente de questões acerca da moral e da simbologia cristã, é quase inevitável que seus leitores sejam remetidos à literatura espiritual, de onde Edith pode acrescentar outra citação à essa atmosfera dostoievskiana:

Quem procura a verdade, consciente ou inconscientemente, procura a Deus.

Até!


NOTA:
Na imagem: pintura O Retorno do Filho Pródigo, de Bartolomé Esteban Murillo
1- A homilia integral de canonização de Edith Stein, da qual foi retirada a citação, pode ser lida no site do Vaticano: HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II NA CERIMÓNIA DE CANONIZAÇÃO DE EDITH STEIN

Momentos | Há mais riquezas porém menos força

Robert Friedrich Stieler
Fábricas químicas da BASF em Ludwigshafen, Alemanha (1881), de Robert Friedrich Stieler (1847–1908)

Lendo O Idiota, publicado em 1869 – à exemplo do que acontece com todos os calhamaços que Dostoiévski deixou – dificilmente não somos levados, ao longo dos muitos temas abordados pela narrativa, à comparar os argumentos de então com os argumentos de agora. Entre esses temas, encontramos de forma recorrente a discussão sócio-política entre os Ocidentalistas e os Filoeslavistas. Discussão que pode ser representada no meio literário por Ivan Turguêniev (liberal, progressista e ocidentalistas convicto) e por Dostoiévski (conservador, avesso ao ocidentalismo e que defendia um modelo próprio, russo, de desenvolvimento), assim como por outras personalidades da época. Cito particularmente os dois porque entre eles houve inúmeras desavenças ideológicas nesse sentindo, além dos inusitados barracos literários.  Se um fora apelidado de “gigante doce”² e o outro sugeria ser “um homem doente”³, ambos subiam no ringue como adolescentes agressivos e saudáveis. 

Para os Ocidentalistas, o atraso no progresso da Rússia era uma vergonha, para os Filoeslavistas, o progresso pela via ocidental era uma desgraça, e, à despeito das desavenças, aqui estamos, com a incrível obra deixada pelos dois. Essa questão, Ocidentalistas versus Filoeslavistas, marcou grande parte das discussões intelectuais na Rússia do século XIX e, ao que parece, de forma tão polarizada como as discussões de hoje.

No fragmento abaixo, lemos na fala do personagem Liébediev – então discursando numa festa entre amigos, regada à vinho – o momento de uma defesa improvisada, aparentemente conservadora, e que representaria algo do pensamento do próprio Dostoiévski.

A sociedade humana está ficando demasiadamente barulhenta e industrial, nela há pouca paz de espírito! (…)

Com a instabilidade dos fundamentos morais, o amigo da humanidade é um antropófago da humanidade, sem falar da sua vaidade; porque vá você ofender a vaidade de algum desses amigos da humanidade, e imediatamente ele estará disposto a incendiar os quatro extremos do mundo por uma pequena vingança (…)

Havia um pensamento mais forte que todas as desgraças, más colheitas, torturas, lepra, maldições, e toda sorte de inferno que a humanidade não suportaria sem um pensamento que concatenasse, que orientasse o coração e fertilizasse as fontes da vida! Mostrem-me os senhores algo semelhante a tal força em nosso século de vícios e estradas de ferros; mostrem-me uma ideia que ligue e agregue a atual sociedade humana ao menos com a metade daquela força que havia naqueles séculos (…)

E não me assustem com o vosso bem-estar, com as vossas riquezas, com a raridade da fome e a rapidez das vias de comunicação! Há mais riquezas porém menos força ¹.

Eis! E não raro, também ouvimos essa queixa entre aqueles mais avessos, críticos por assim dizer, de certas tendências e condições de nosso tempo. Não propriamente avessos à expansão das “estradas de ferro” na Rússia do século XIX, claro! Avessos ao correlato representado pela disseminação veloz, feroz, e nem sempre consciente, dos muitos sinais e ruídos tecnológicos, pelo uso ostensivo e pela realidade onipresente de seus meios. Assim também, no lugar de uma “instabilidade” moral, fala-se hoje mais facilmente dos riscos humanos de um relativismo moral.

O quê exatamente esses termos representam; se são justos, verdadeiros, ou não, cada um julgue por si, mas reforço a última frase do fragmento acima, na forma de uma pergunta à nós mesmo sobre nosso tempo e seus argumentos: 

“Há mais riquezas, porém menos força” ?

Até!


NOTA:
1 – F. Dostoiévski, O IDIOTA, Editora 34. (pags. 421 e 425)
2 – Sobre Turguêniev, segundo Edmond Goncourt, em carta.
3 – F. Dostoiévski, MEMÓRIAS DO SUBSOLO, Editora 34 (pag. 15)

Citações | Sobre a Beleza

BELEZA DOSTOIÉVSKI

Essa semana, revendo as páginas marcada em alguns livros da estante, encontrei várias delas falando sobre a beleza; e como a beleza é recorrente! Como há nela um conflito, uma queda, uma salvação! Esses excertos, abaixo encadeados, representam algumas facetas pouco convencionais da beleza. Compartilho esses fragmentos de forma tão desinteressada como a exploração das páginas marcadas, apenas, talvez, para manter a beleza em pauta e acompanhar algumas palavras sobre ela:

A senhorita é extraordinariamente bela, tão bela que dá até medo de olhá-la

Assim Dostoiévski representa, em O Idiota, a inquietação do príncipe Míchkin na presença de Aglaia, onde, instanciado pela jovem a pronunciar-se sobre a impressão que a mesma lhe causava, inseguro, conclui:

É difícil julgar a beleza; eu ainda não estou preparado.

Mais tarde, em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski desenvolve a mesma ideia pela voz de Mitia:

A beleza não é só uma coisa terrível, é também misteriosa; nela lutam Deus e o diabo, mas o campo de batalha é o coração humano

Parece que a beleza trás consigo um enigma; se não terrível, no mínimo desestabilizador – causa imponderável de insegurança e sujeição. Em um trecho de As Cores do Crepúsculo: A estética do Envelhecer, Rubens Alvez (se não me engano citando Emily Browning) representa essa sujeição de forma menos dramática, mas, ainda assim, inescapável:

De fato, ‘quando nos sentimos mais seguros acontece um pôr do sol, um final do coro de Eurípedes, um gesto delicado de uma mulher, e estamos de novo perdidos'”

Parece que a beleza sequestra todos os sentidos, e o único resgate é render toda a atenção; e de tal forma que a atenção se torna um cativeiro para o espírito – e aí é possível que haja temor. Esse temor, no entanto, pode ser apenas o frêmito desejado de uma satisfação mais profunda, sempre almejada, mas muito pouco familiar: a necessidade que têm o sofrimento… de acabar-se espontaneamente.

Para o escritor Jorge Luiz Borges,

A felicidade não precisa ser transmutada em beleza, a desventura sim.

Talvez por isso ele também achasse – ele, que ficara cego – que:

Nesse mundo, a beleza é comum.

Comum pelo excesso das desventuras já transmutadas, pela variedade das belezas, então, geradas; comum porque inescapável e, por ser inescapável, também causa da insegurança de Emily Browning diante do gesto delicado de uma mulher, causa do medo do príncipe Míchkin diante da beleza implacável e indiferente de Aglaia, causa do campo de batalha espiritual no coração de Mítia. Inescapável! E, por isso, causa mesmo da oração suplicante de Rafael Cansinos-Asséns, tão citado por Borges:

Ah Senhor! Que não haja tanta beleza!

Essa oração, esse clamor ao Senhor, faz lembrar um trecho da carta que João Paulo II destinou aos artistas em 1999, onde diz:

A beleza, que transmitireis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna

e graças à esse assombro, João Paulo II completa, citando, ao fim, Dostoiévski:

A humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho… Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que «a beleza salvará o mundo»”.

Essa citação na Carta aos Artistas, se refere à fala exaltada de Hippolit em O Idiota, através de quem Dostoiévski diz do príncipe Míchkin

O príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que quem tem ideias tão jocosas está apaixonado.

A beleza salvará o mundo! Não é uma afirmação pequena, mas Hippolit acrescenta o mesmo questionamento que deixo para encerrar todos esses fragmentos sobre a beleza:

Não core, príncipe… que beleza salvará o mundo?

Até logo!


NOTA:

1- Na imagem : pintura do russo Yuly Klever. Sunset. 1890, contemporâneo de Fiódor Dostoiévski
2- Caso haja interesse, a Carta aos Artistas de João Paulo II pode ser lida no link https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html