Hugo | O Sofrimento e o Triunfo

Gilliatt suava e tiritava.
Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silêncio terrível.
Ele sentia o inimigo.
As coisas tem um sombrio non possumus¹.
A inércia delas é uma lúgubre advertência.

Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava-o a água, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estômago. Ele suportava a opressão em um conjunto fatigante. O obstáculo, tranquilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a consciência de um desprezo sombrio e de um ódio que fazia esforço por diminuí-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha que lutar com hostilidade impenetrável. Não podendo pô-lo fora dali, punham-no debaixo dos pés. Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisível. Cada dia, a misteriosa verruma entrava um pedaço.

A situação de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a um duelo equívoco com um traidor.

Cercava-o a coalização das forças obscuras. Ele sentia uma resolução de alguém para expulsá-lo dali. É assim que a geleira expele a massa errática. 

Quase sem parecer que o tocava, essa coalizão latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem por isso deixava ele de trabalhar, e sem cessar, mas, à proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário. Dissera-se que aquela feroz natureza, recebando a alma, resolvera-se a extenuar o homem. Gilliatt afrontava e esperava. O abismo começava por cansá-lo. Que faria depois o abismo? (…)

Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nessa palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda está para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso é Colombo, no segundo é Jesus. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo (…)

Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossível, o êxito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnânimo, isso é que o fazia patético.


O trecho acima é um fragmento de “Os Trabalhadores do Mar” de Victor Hugo


NOTA:
1 – Não podemos, resposta de São Paulo e São Pedro à tentativa de proibição da pregação do Evangelho (At 4:20)  (N. do Ed.)
2 – Esse trecho pode ser lido completo, e é muito rico, na pág. 271-273 da antiga coleção Os Imortais da Literatura Universal, da Abril Cultural (1971), volume 18: Os Trabalhadores do Mar, com tradução de Machado de Assis, ou em edições mais atuais com a mesma tradução, como a da extinta Cosac Naify, mas em página diversa visto as varioções de editoração e as inclusões posteriores que foram cortadas na edição original.

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