Citações | Sobre a Beleza

BELEZA DOSTOIÉVSKI

Essa semana, revendo as páginas marcada em alguns livros da estante, encontrei várias delas falando sobre a beleza; e como a beleza é recorrente! Como há nela um conflito, uma queda, uma salvação! Esses excertos, abaixo encadeados, representam algumas facetas pouco convencionais da beleza. Compartilho esses fragmentos de forma tão desinteressada como a exploração das páginas marcadas, apenas, talvez, para manter a beleza em pauta e acompanhar algumas palavras sobre ela:

A senhorita é extraordinariamente bela, tão bela que dá até medo de olhá-la

Assim Dostoiévski representa, em O Idiota, a inquietação do príncipe Míchkin na presença de Aglaia, onde, instanciado pela jovem a pronunciar-se sobre a impressão que a mesma lhe causava, inseguro, conclui:

É difícil julgar a beleza; eu ainda não estou preparado.

Mais tarde, em Os Irmãos Karamázov, Dostoiévski desenvolve a mesma ideia pela voz de Mitia:

A beleza não é só uma coisa terrível, é também misteriosa; nela lutam Deus e o diabo, mas o campo de batalha é o coração humano

Parece que a beleza trás consigo um enigma; se não terrível, no mínimo desestabilizador – causa imponderável de insegurança e sujeição. Em um trecho de As Cores do Crepúsculo: A estética do Envelhecer, Rubens Alvez (se não me engano citando Emily Browning) representa essa sujeição de forma menos dramática, mas, ainda assim, inescapável:

De fato, ‘quando nos sentimos mais seguros acontece um pôr do sol, um final do coro de Eurípedes, um gesto delicado de uma mulher, e estamos de novo perdidos'”

Parece que a beleza sequestra todos os sentidos, e o único resgate é render toda a atenção; e de tal forma que a atenção se torna um cativeiro para o espírito – e aí é possível que haja temor. Esse temor, no entanto, pode ser apenas o frêmito desejado de uma satisfação mais profunda, sempre almejada, mas muito pouco familiar: a necessidade que têm o sofrimento… de acabar-se espontaneamente.

Para o escritor Jorge Luiz Borges,

A felicidade não precisa ser transmutada em beleza, a desventura sim.

Talvez por isso ele também achasse – ele, que ficara cego – que:

Nesse mundo, a beleza é comum.

Comum pelo excesso das desventuras já transmutadas, pela variedade das belezas, então, geradas; comum porque inescapável e, por ser inescapável, também causa da insegurança de Emily Browning diante do gesto delicado de uma mulher, causa do medo do príncipe Míchkin diante da beleza implacável e indiferente de Aglaia, causa do campo de batalha espiritual no coração de Mítia. Inescapável! E, por isso, causa mesmo da oração suplicante de Rafael Cansinos-Asséns, tão citado por Borges:

Ah Senhor! Que não haja tanta beleza!

Essa oração, esse clamor ao Senhor, faz lembrar um trecho da carta que João Paulo II destinou aos artistas em 1999, onde diz:

A beleza, que transmitireis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna

e graças à esse assombro, João Paulo II completa, citando, ao fim, Dostoiévski:

A humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho… Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que «a beleza salvará o mundo»”.

Essa citação na Carta aos Artistas, se refere à fala exaltada de Hippolit em O Idiota, através de quem Dostoiévski diz do príncipe Míchkin

O príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que quem tem ideias tão jocosas está apaixonado.

A beleza salvará o mundo! Não é uma afirmação pequena, mas Hippolit acrescenta o mesmo questionamento que deixo para encerrar todos esses fragmentos sobre a beleza:

Não core, príncipe… que beleza salvará o mundo?

Até logo!


NOTA:

1- Na imagem : pintura do russo Yuly Klever. Sunset. 1890, contemporâneo de Fiódor Dostoiévski
2- Caso haja interesse, a Carta aos Artistas de João Paulo II pode ser lida no link https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/letters/1999/documents/hf_jp-ii_let_23041999_artists.html